Descripción
O presente resumo tem como objetivo refletir sobre a nossa trajetória como estudantes africanos no ensino superior brasileiro, destacando a educação como um instrumento fundamental de resistência e transformação social (FREIRE, 1968; HOOKS, 1994). Partindo de uma perspectiva autobiográfica, abordamos as experiências vividas ao longo do percurso acadêmico, evidenciando os desafios enfrentados no processo de inserção e permanência em um contexto educacional estrangeiro (JOSSO, 2002; DELORY-MOMBERGER, 2008). A nossa chegada ao Brasil, concretamente na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), para a realização de estudos superiores, representa, ao mesmo tempo, a concretização de um projeto de vida e o início de um processo complexo de adaptação. Entre os principais desafios, destacam-se as barreiras linguísticas, as diferenças culturais, as dificuldades econômicas e os processos de estranhamento no ambiente universitário, pois tudo era diferente, apesar de termos vindo de um país que tem o português como língua oficial, havia muitas expressões e variações do português do Brasil que não compreendíamos, incluindo as gírias cearenses. Tais fatores exigem de nós não apenas esforço acadêmico, mas também resiliência emocional e capacidade de reinvenção cotidiana (CYRULNIK, 2001; RUTTER, 2006). Foi um processo difícil, mas, a cada dia, mês e ano, crescia em nós a esperança de um sonho prestes a ser alcançado. Além disso, a experiência de sermos estudantes africanos em uma universidade brasileira revela dinâmicas sociais marcadas por desigualdades, incluindo situações de invisibilidade e, por vezes, de discriminação racial (FANON, 1952; CARNEIRO, 2003). Nesse contexto, a permanência no ensino superior configura-se como um ato de resistência, no qual a afirmação da nossa identidade cultural e o compromisso com a nossa formação assumem um papel central (FREIRE, 1996; HOOKS, 2003). Por outro lado, é necessário destacar que a nossa trajetória acadêmica também possibilita a construção de redes de apoio, o fortalecimento de vínculos sociais e o acesso a novos conhecimentos, ampliando horizontes pessoais e profissionais. A educação, nesse sentido, ultrapassa sua dimensão individual e passa a ser compreendida como uma ferramenta de transformação coletiva, especialmente quando articulada ao compromisso com o desenvolvimento das nossas comunidades de origem (GROTBERG, 2005; SOUZA, 2014). Dessa forma, a nossa trajetória evidencia que, apesar das adversidades, o acesso ao ensino superior pode promover mudanças significativas na vida de sujeitos historicamente marginalizados. Concluímos que a educação, aliada à resistência e à persistência, constitui um caminho potente para a transformação social, reafirmando seu papel estratégico na construção de sociedades mais justas e inclusivas.
Palabras clave:
EDUCAÇÃO, RESISTÊNCIA, RESILIÊNCIA, TRAJETÓRIAS.