Descripción
O cenário contemporâneo das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil tem sido marcado pela expansão de modelos de gestão gerencialista que reconfiguram a identidade, a organização e o cotidiano da profissão docente. No caso dos professores das áreas da saúde da Universidade Federal da Bahia, essa dinâmica torna-se ainda mais complexa devido à indissociabilidade entre ensino, pesquisa, extensão e assistência direta em hospitais universitários. Nesse contexto, emerge o seguinte problema de investigação: de que maneira o tensionamento entre as condições objetivas de trabalho e as regulações da carreira acadêmica contribui para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout entre docentes da área da saúde?
Partindo da compreensão de que o Burnout não deve ser interpretado como falha individual, mas como expressão sociopolítica das transformações no trabalho acadêmico, este estudo analisa como a intensificação das demandas institucionais e a precarização das condições de trabalho produzem desgaste emocional e profissional. Docentes da área da saúde frequentemente atuam em cenários de prática marcados por subfinanciamento, escassez de insumos e déficit de pessoal, exigindo constante adaptação para garantir a continuidade do cuidado e da formação profissional. Nesse contexto emerge o chamado “sofrimento ético”, caracterizado pelo conflito entre o compromisso com uma assistência digna e as limitações estruturais do sistema de saúde, produzindo significativa sobrecarga emocional.
Paralelamente, as regulações da carreira acadêmica reforçam um regime produtivista sustentado por métricas de desempenho centradas na produção científica e na captação de recursos. Tal modelo tende a invisibilizar dimensões fundamentais do trabalho docente em saúde, como a supervisão clínica, a preceptoria e o acompanhamento de estudantes em cenários de prática, ampliando o descompasso entre as exigências institucionais e as condições concretas de trabalho.
Metodologicamente, o estudo adota abordagem mista, articulando procedimentos quantitativos e qualitativos. Para mensurar a presença da síndrome são utilizados instrumentos padronizados, em especial o Maslach Burnout Inventory, que avalia as dimensões de exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional. Complementarmente, são realizadas entrevistas semiestruturadas que buscam compreender as experiências subjetivas dos docentes e os sentidos atribuídos ao trabalho acadêmico em saúde.
Resultados parciais indicam que o regime de Dedicação Exclusiva, embora associado ao prestígio e à valorização institucional da carreira, pode tornar-se um vetor de adoecimento quando combinado à ausência de limites claros entre trabalho e vida privada, contribuindo para processos de intensificação laboral e desgaste emocional.
Os achados apontam para a necessidade de repensar os modelos de regulação do trabalho docente nas universidades públicas. A predominância de indicadores de produtividade como principal parâmetro de avaliação tende a desconsiderar os impactos psicossociais do trabalho acadêmico. Nesse sentido, o Burnout emerge como um importante indicador da insustentabilidade do modelo atual de gestão da carreira.
Conclui-se que a valorização da docência e a preservação da universidade pública dependem da implementação de políticas institucionais voltadas à proteção da saúde mental dos trabalhadores, reconhecendo as especificidades do trabalho em saúde e garantindo que a excelência acadêmica não seja construída sobre o adoecimento de seus profissionais.
Palavras-chave: Burnout; saúde do trabalhador; ensino superior; universidade pública.
Palabras clave:
Burnout; saúde do trabalhador; ensino superior; universidade pública.