Descripción
Este texto é resultado de pesquisas cujo objeto é a formação, desenvolvimento e estrutura da universidade brasileira, numa perspectiva histórica. Seu propósito é apresentar uma reflexão teórica e explicar o fenômeno atual do autodidatismo, a partir das ideias de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes – estudiosos e militantes que ocuparam espaços públicos e elaboraram análises e propostas políticas para a educação do país, em momentos distintos que se cruzaram durante o século XX. Entre suas detecções para caracterizar a história da universidade no Brasil encontra-se o fato de esta instituição ter sido marcada – até o surgimento das primeiras Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, na década de 1930 – por dependência daquilo estes autores denominam “autodidatismo”, condição objetiva derivada de escolas superiores, de regime parcial de ensino e de estudos; sem espaço físico para que estudantes pudessem trocar experiências e exercitar a criatividade; dependentes de transmissão de conhecimentos introdutórios, com professores catedráticos que orientavam e apontavam o caminho para os poucos que desejassem ou necessitassem aprofundar-se em algum conhecimento, voltando, posteriormente, aprovados em concursos, para as mesmas escolas de onde saíram. Após o fim da ditadura cívico-militar, período aproximado de duas décadas (1964-1985) em que a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico conviveram com o autoritarismo e modernização conservadora, a pressão popular por mais universidades públicas criou as condições para que se ampliassem cursos e vagas, interiorizando a oferta de ensino superior. Nossas pesquisas indicam, entretanto, que, na conjuntura da fase do capitalismo neoliberal, a partir da década de 1980, grande parcela das universidades criadas no período, para atender as classes trabalhadoras, ao oferecer apenas cursos noturnos, tem obrigado os estudantes às mesmas condições limitadas à profissionalização das antigas escolas superiores do final do século XIX e início do século XX. Metodologicamente, nossa pesquisa guiou-se pelos princípios do percurso histórico-dialético, identificando nas condições atuais os resultados de uma dinâmica econômica, social e política que atualiza, a partir de contradições internas e externas, as diretrizes do sistema capitalista. Os resultados obtidos a partir de revisão bibliográfica e por meio de dados estatísticos apontam que, nestas situações, restam, aos os estudantes - pressionados pela necessidade de garantir sobrevivência material por meio de trabalho assalariado – condições curriculares e materiais idênticas às que caracterizavam o autodidatismo de quase um século antes. Isso configura em algumas frações universitárias a contradição de existirem professores-pesquisadores, com tempo integral e dedicação exclusiva, incapazes de mobilizar grupos de pesquisa e inovação tecnológica com uma parcela da juventude universitária que, a despeito de encontrarem condições favoráveis de ingresso, são impossibilitados, concretamente, de desenvolverem estudos aprofundados que poderiam, em tempo não tão distante, alterar as condições críticas e políticas de ciência e tecnologia do país.
Palabras clave:
HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE, AUTODIDATISMO, UNIVERSIDADES BRASILEIRAS